- Postado em 28 de agosto de 2009, sexta-feira -

 

Pronunciamento de Rafael Greca na abertura da Bienal do Livro - Curitiba
27 de agosto de 2009

Pediram-me as associações culturais, na Academia Paranaense de Letras, que viesse aqui elogiar Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, personagem ilustre da história do Paraná, nascido em Paranaguá em 1849, martirizado pela revolução de 1894,
e recentemente inscrito no Livro dos Heróis da Pátria que se conserva no Pantheon de Brasília.

Este empresário – talvez o único empresário mártir da história – tem a ver com a primeira Bienal do Livro de Curitiba pelo fato de haver fundado a Impressora Paranaense. Isto na acanhada Curitiba do longínquo ano de 1888,onde prosperavam fortunas socadas em barbaquás e engenhos de erva-mate – inclusive o primeiro engenho a vapor do Brasil, na fazenda Roseira, propriedade do Barão.

A Impressora Paranaense era na época moderna fábrica de rótulos, revistas e livros.
Tirou de suas pedras de lióz litografadas a perenidade do pensamento simbolista e parnasiano que fundou a comunidade intelectual do Paraná…
A ponto de aqui gerar a primeira Universidade do Brasil, em 1912.

Perguntar nas ruas da atual Curitiba, quem foi o Barão do Serro Azul nos levará fatalmente a perceber que nem todos dele se recordam.
O que não lhe diminui nem os méritos, nem a glória, nem a importância.

Isto nos leva a propor uma reflexão sobre o atual momento da Cultura.
Estaríamos vivendo, ao invés de uma Cultura da Memória, uma Cultura do Esquecimento.

Sobre As possibilidades da memória & as ciladas do esquecimento, li recentemente, numa revista italiana, entrevista do poeta – e artífice da liberdade tcheca, presidente VacLav Havel, onde diz:

O que está acontecendo conosco?

Cada semana sai uma nova geração de telefones celulares.
Para poder usá-la você tem necessidade de instruções detalhadas.

Aí você passa todo seu tempo lendo as novas instruções, em vez de ler livros – sobre pensamento, humanidade e filosofia.

E no tempo livre você ainda vê publicidade na tv, onde uma bela criatura bronzeadíssima diz que está feliz porque usa o óleo de bronzear mais eficiente, de uma certa marca, que lhe garante as mais poderosas conquistas no amor..a própria felicidade.

Assim, crescem massas de pessoas que não crêem em nenhum valor.
São as vítimas da mídia, os consumidores indefesos, os consumidores alvo.
A personalidade perde o significado.
Só cultuam a novidade.
A perigosa e moderna ideologia da inovação.
Como um detergente que se escreve sobre ele “NOVO!!!”
No dia seguinte já surge um outro: … “NOVO!!!”
Tudo isso fica muito mais perigoso quando esta ideologia de busca do novo – de mero consumo - se aplica ao processo político, à escolha de prefeitos, governadores, governantes de nações.
Numa mudança frenética perigosa porque substituímos a essência pela tendência. O saber pela frivolidade e pelo consumo…

Isto me recorda as lições de um texto barroco:
Aquele, de 1674, onde o padre Antônio Vieira discutia as
Lágrimas de Heráclito & o riso de Demócrito
Demócrito ria, porque todas as coisas do mundo lhe pareciam ignorâncias.
Heráclito chorava porque tudo - neste mundo - lhe pareciam misérias.
Tinha mais razão Heráclito em chorar do que Demócrito em rir.
Porque, neste mundo, há muitas misérias que são ignorâncias,
mas não há ignorância que não seja miséria.

Sobre o mesmo tema, refletiram também os clássicos.
Segundo um velho poema de Píndaro:
o ágape dos deuses entediados, só melhora…
quando Zeus, entre ambrosias e néctares, dá aos homens a Poesia

O que vale mais, as lágrimas de Heráclito, ou o riso de Demócrito?

– através do gracioso dom da musa Mnemosis (a Memória),
capaz de permitir a todos contar uma estória que os faça melhores…

Contrastemos os texto barroco e o clássico com dois índices modernos:
O WORLD VALUES SURVEY – que classifica países segundo seu índice de felicidade (ou satisfação) coletiva
E o GLOBAL INFORMATION TECNOLOGY REPORT que mede a influência da tecnologia numa nação.

Será verdade que a tecnologia faz rima com felicidade?
Nos tornamos felizes pela posse do último iPhone. Ou pela compra de um refrigerador que nos avise que se acabaram os ovos e ordene a ida ao supermercado?

Dezenas de outras pesquisas provam: os gadgets eletrônicos nos dão uma euforia que, rapidamente, se transforma em frustração.

O homem é um animal adaptativo, em poucas semanas o sentimento de bem-estar pela conquista de uma inovação, de uma nova tecnologia, se esvai.

Os psicólogos chamam isto de adaptação hedônica: não importa quão apaixonante seja a última inovação, nem quão simples seja a nossa vida:
logo a daremos por superada…
E não só: A satisfação oferecida pelo dinheiro se atenua com o crescente das ambições.

O Prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman chama isto de armadilha da expectativa crescente.

A armadilha não é a tecnologia em si, mas o desejo de exibi-la.
O homem é um animal social, mostrar o objeto mais à vanguarda, demonstra poder.

“a posse da inovação influi sobre a imagem social”, comenta o professor de filosofia da Universidade de Milão, Edoardo Fleisschner.
“Os meios tecnológicos exibidos vêm em confronto com outros, e conferem um sentimento de supremacia social…”

A supremacia social de poder falar em língua estrangeira:
“Viu meu novo iPhone, meu new gadget?”
O “gadget” – o brinquedo novo te distingue.
Pecado que, logo aparece qualquer um, com um outro brinquedo ainda melhor.

E nesta espiral de insatisfação perene, de águas tumultuadas, navegam publicitários e a publicidade.

Isto não quer dizer que o desenvolvimento digital não possa melhorar a nossa vida.
A vida melhora, mas as pessoas se sentem piores.

Houve uma grande alegria nas primeiras conquistas da tecnologia. Quando, por exemplo, a máquina de lavar roupa, libertou as mulheres donas de casa, do trabalho exaustivo, monótono e repetitivo, da tina, da tábua e do tanque…

Fala-se agora, numa nova fase de conquista tecnológica:
As redes de relacionamento, a alegria das comunidades on-line,
a revitalização de áreas esquecidas que se tornam espaços abertos wireless aonde é possível o encontro.

Não deixa de ser uma esperança tudo o que tem sido mostrado nas feiras de Bologna a Tóquio, de SP a Beijing, a tecnologia aplicada às dis –habilidades:
pernas robóticas, capazes de sustentar as pessoas sem forças, de propiciar a satisfação de suas necessidades especiais.
Carebots – os robôs capazes de assistir doentes e anciãos.
Sem falar na tranqüilidade que o telefone celular dá às famílias para controlar o ir e vir de seus filhos, uma espécie de compensação para os terríveis dias de medo e violência que vivemos…

Não é pouco, mas não é a felicidade.

Porque quando a tecnologia passou a substituir as relações humanas, tudo ficou mais solitário… muito mais triste.

Pensemos na noite de ópera, todos juntos no teatro comunal,
No jogo de futebol clássico, a cidade inteira encontrando-se nas emoções do antigo estádio…

na paisagem do cinema – “o cinema Paradiso” – que reunia uma comunidade. Isto evoluiu para a TV familiar,
e finalmente chegou à atual TV individual, acoplada ao telefoninho celular…

O mundo moderno corre o risco de sofrer da síndrome do click.

Tudo e rápido.
O que nos faz desligar o celular rápido, até sem o cumprimento de despedida, pela urgência de nos comunicarmos rapidamente com o próximo.

A dependência que se cria com os servomecanismos:
O portão eletrônico, o sensor que acende a luz.

Esta síndrome do click é perigosa, sobremaneira, para as crianças e os jovens.
Eles não aprendem que é necessário investir tempo para obter alguma coisa.
Não, cada vez que você faz um click, que você aciona um botão,
neste mundo que é reprodução dos “vídeo games”, você obtém um resultado.

E isto se transfere a todas as ações humanas.
Nós perdemos a cognição da existência do tempo.
A felicidade de transcorrer este tempo

Perdemos o prazer da espera. Já não ouvimos os sinos das vésperas…

Afinal, se eu tiro da vida o fator tempo, eu suprimo um fator potencial de felicidade.

Diante deste pensamento lapidar do professor italiano Edoardo Fleisschner, filósofo da Universidade de Milão, não posso deixar de recordar os versos de Cecília Meireles:

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Sobre esta supressão do tempo, e das esperas, provocada pela tecnologia leio ainda Valerie Tibérius, da Universidade de Minesotta, que se ocupa de pensar o bem estar e as experiências mediadas pela tecnologia.

Diz a pensadora: “É cada dia mais difícil termos uma experiência que não seja interrompida por uma chamada de celular, acompanhada da chegada de um podcast (podcasting, palavra derivada de iPod + broadcasting, criada em 2004 na Inglaterra para mensagens com música+vídeos+ texto), ou filtrada por lentes de uma telecâmera.

É sempre mais difícil não ter o diálogo com um amigo cortado por uma chamada de celular – que modifica o tom e o conteúdo da reflexão.

As pessoas, com música constante de fundo, enquanto caminham, são impedidas de perceber o entorno.
Diante do frenético gosto musical do DJ, já não é possível conversarmos nas festas. Terá a vida deixado de ser a arte do encontro?

As tecnologias tiram tempo ao hábito de cultivarmos a palavra, o conto, as estórias, e a recordação das emoções.

As tecnologias nos privam do banquete dos deuses, aquele referido por Píndaro, que nos torna eternos,
reconciliados com a vida.

E a suprema tristeza é o twitter, onde o horizonte inteiro das emoções humanas é restrito a 180 toques. Ali as pessoas anotam o que estão fazendo e o que estão sentindo, isto porque, a felicidade se esquece depressa…
E mais depressa ainda…quando é uma felicidade virtual.

Toda essa reflexão nos remete a este momento auspicioso da abertura da primeira Bienal do Livro na nossa amada cidade de Curitiba.

A cidade dos Faróis do Saber, das bibliotecas públicas junto aos terminais de ônibus, nas Ruas de Cidadania, a cidade com mais bibliotecas públicas de bairro do Brasil – e quiçá do mundo –
recebe a partir de hoje a feira do Livro e da Literatura.

A capital do estado que constrói as Bibliotecas cidadãs, na ambição de não deixar nenhum município sem biblioteca e telecentro, recebe a partir de agora a festa da Literatura e do Saber.

Um banquete de felicidade, para ser servido e compartilhado com todos.
Um ágape dos deuses, onde Memória e Poesia, Narrativa e Conto, Prosa e Verso…enfim… os livros têm o condão de revogar todas as ignorâncias e misérias.

Os livros, nossos companheiros de jornada, nos ajudam a decifrar o enigma da vida. Nos ajudam a enfrentar estes tempos em que a cultura da memória parece substituída pela cultura do esquecimento.

Ninguém pode ser contra as tecnologias.
Até porque escrever no computador, emitir pensamento nos blogs – estes modernos diários de bordo – é delicioso, e eficiente.
Mas , nada substitui o poder da reflexão.

O filósofo espanhol, mestre de comunicação moderna, Jesus Martin Barbero, perguntou esta semana em SP,o que aconteceria com a comunidade mundial on- line, com os face-books, com as redes de relacionamento, se faltasse luz, se todos fôssemos todos desligados da tomad?.

Há, no interior da alma humana, o poder de superação de todos os medos, todas as misérias, e todas as ignorâncias.
Há, dentro da gente, uma luz que não se apaga.
Sua imagem reflete-se no espelho eterno dos livros.

Só os livros nos ajudam a exercer plenamente o poder absoluto e definitivo da reflexão. Neles vive eternamente a nossa Humanidade.
Pelos livros podemos perceber as infinitas possibilidades da memória
E ainda a escapar das ciladas do esquecimento
.


- Postado em 27 de agosto de 2009, quinta-feira -

 

O presidente da Cohapar, Rafael Greca, discorreu na quarta-feira (26), durante encontro da Academia Paranaense de Letras (APL), sobre o uso exagerado de palavras em inglês na língua portuguesa. Com o tema ‘A língua portuguesa, nosso patrimônio cultural’, Greca disse que a armadilha não é só usar termos em inglês de forma exagerada, mas também exibi-las sem tradução. “ Isso exclui, isola e evita o contato entre as pessoas”. Segundo ele, o debate sobre a língua portuguesa não pode cair na peculiaridade exótica de tentar se proibir as traduções. “Toda tradução é ir ao encontro do outro, de quem ainda não sabe. É um ato de educação, que preserva a cultura e a comunidade nacional”.

Rafael Greca cita o exemplo oferecido pelo senador Ronaldo Cunha Lima para que se compreenda o que o inglês tem feito com a língua portuguesa: “fui ao freezer, abri uma coca diet, e saí cantando um jingle, enquanto ligava o meu disc player para ouvir uma música new age. Precisava de um relax. Meu check up indicava stress. Dei um time e fui ler um bestseller no living do meu flat. Desci ao playground, depois fui fazer o meu cooper…”.

Ao mesmo tempo que critica o excesso de termos em inglês na linguagem comum e defende a tradução destes termos, Greca lembra que muitas palavras em português têm sua raiz em outras culturas, um ponto importante para se entender a própria língua, já que é um instrumento vivo e dela faz parte todo o intercâmbio. “Observemos o nome de Deus em diversas línguas, desde o indo-europeu até o português, que tem a impressionante manutenção da semelhança do Santo Nome em todas as línguas”. Ele cita que Deus é, em latim, Divus, Divo em eslavo, Dyaus Pitah em indiano e Deivai em persa”.

O jornalista e membro da APL, Adherbal Fortes Sá Júnior, comentou a importância deste debate para a preservação das raízes da língua portuguesa. “A etimologia é uma coisa importantíssima para nós que vivemos todo dia resolvendo problemas de português e esses problemas geralmente são resolvidos quando você olha para a origem das palavras. O Rafael Greca é uma pessoa que tem essa cultura maravilhosa e uma visão política do ensino e nos mostrou como você usa as informações e como essas informações precisam ser, em determinado momento, alertadas sobre uma perda do foco. E foi isso o que ele fez conosco, nos motivou a recuperar o foco”.

Para o presidente da Academia Paranaense de Letras, José Carlos Veiga Lopes, o assunto apresentado por Rafael Greca é oportuno e deve ser levado para outros públicos. “A língua portuguesa é um assunto sempre do momento e tem de ser valorizada, principalmente com essa última reforma ortográfica e com essa invasão de palavras estrangeiras. É um assunto muito oportuno e seria de fundamental importância que fosse levada para outros públicos, além da APL”.

Já o reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), Clemente Ivo Juliatto, “a história é o que nós somos, cultura é isso, é a língua, a religião, os costumes do povo, enfim tudo isso, e nós temos que preservar, porém abertos sempre às novidades, pois o português de hoje talvez não seja o mesmo daqui a 200 anos”.

Rafael Greca finalizou valorizando o papel da Academia. “A APL está saindo das suas quatro paredes para tentar provocar um melhor educação do povo paranaense. A nominação do Paraná, hoje o segundo estado do país em desenvolvimento, segundo pesquisa da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, por seus avanços na educação, cultura e saúde, nos dá a responsabilidade de sermos ainda melhores.”

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