A condição humana da mulher exige que o ano inteiro lhe seja consagrado. Não apenas um dia, um mês, uma flor, um jantar, uma sessão solene no parlamento ou na academia. Homenagear as mulheres é mais do que uma melosa troca de flores, rosas ou acácias, ou um interminável programa de piegas discursos adulatórios. Homenagear a mulher é lutar por soluções para os graves problemas que ameaçam seu respeito humano, integridade física, acesso à saúde, promoção e seguridade social. Precisamos de pão, saúde, liberdade, e disso sabia a pensadora francesa Simone de Beauvoir, pioneira da causa feminista, ao escrever, ainda em 1949, seu prodigioso livro O Segundo Sexo.
Além de lê-lo é preciso conhecer as Memórias de Simone, para aprender o percurso de uma mulher no caminho de sua libertação do peso das convenções sociais de mais de vinte séculos de opressão masculina, que sempre deram tarefas subalternas às mulheres – desde que o primitivo matriarcado desapareceu na noite dos tempos.
Hoje, passados 62 anos da publicação do revolucionário livro, ainda padecem mulheres sob burkas, mutiladas em seus órgãos genitais nas sombras do atraso, seja do mundo islâmico, seja de tribos indígenas sul americanas.
Nas grandes cidades ocidentais, a condição feminina frágil revela-se nas clínicas clandestinas de aborto, com sua clientela de mães desesperadas, na sua maioria meninas movidas pelo medo e a ansiedade diante da vida. Aqui no Brasil, ronda-lhes a triste sorte o perigo de serem presas, porque consideradas fora da lei. Já os homens que também fizeram os filhos rejeitados, estes permanecem sempre impunes, a salvo, pois os draconianos legisladores – inclusive os religiosos – jamais se ocupam deles.
Só das infelizes mulheres, tantas vezes transformadas em objetos de prazer e de consumo. Aqui o blog imageshack.us refere o que seria uma burka mental. Isto é, a cabeça feminina oprimida para pensar que ser livre é servir de objeto.
A frase mais forte de Beauvoir é on ne naît pas femme, on le deviant. Mulher não se nasce, nós nos tornamos mulheres, pelas imposições sociais e caracteres intrínsecos de cada cultura.
Para a pensadora Simone de Beauvoir, isto não significa evidentemente que pessoas dos dois sexos sejam absolutamente idênticas ao nascer. Significa que as mulheres ainda são submetidas a uma criação opressora, que pretende transformá-las em vassalas dos homens.
A liberdade pode ser alcançada, e precisa ser construída. É magnífico o exemplo da própria Simone de Beauvoir, e ainda de duas outras filósofas do século 20, as pensadoras Simone Weil e Hanna Arendt. Vale a leitura. O ser humano é aquilo que o ser humano conhece. Comemorar é conhecer.